"COMMODITIZAÇÃO" - MAIS UM NEOLOGISMO QUE NOS ATINGE

 

Desde os primórdios da Informática ouvimos palavras novas, normalmente não existentes no dicionário (chamadas de neologismos), que demonstram uma tendência do mercado.

Na década de 80 , por exemplo, quem não lembra da famosa palavra "DOWNSIZING" - neologismo de origem inglesa - que definia a tendência do mercado de "trocar" os mainframes por redes de computadores menores. O que se viu a seguir , em casos extremos, foi a "Santa Inquisição" dos mainframes , na maioria equipamentos IBM

Logo em seguida, década de 90,  estreou na área a palavra "TERCEIRIZAÇÃO" o que desencadeou a maior onda de abertura de Empresas e Micro Empresas que já tínhamos visto. Muita gente trocando o "salário" pelo "faturamento"  .

Vários outros neologismos foram aparecendo, alguns bons e outros nem tanto, até chegarmos ao "marasmo" que vivemos os últimos anos, provocado por vários fatores políticos e econômicos associados (direta ou indiretamente) ao termo "GLOBALIZAÇÃO".

Confesso que até pensei que as "palavras mágicas" tinham se esgotado, porém, estava enganado. Um dia no aeroporto de Congonhas, indo trabalhar "como terceiro" em uma empresa em seu "rightsize" dentro da realidade "globalizada", folheei a revista Harvard Business Review e quase não percebi que estava presenciando o nascimento de mais um neologismo : "COMMODITIZAÇÃO".

Nesta revista um renomado "guru" americano afirmava, com sofisticada estrutura sintática e semântica, que o Software estava virando "COMMODITIES". Para aqueles que não gostam de termos de Marketing ou "Jargões" executivos ai vai a explicação em bom Português e de forma bem simplificada:

' "Commodities" são mercadorias, bens de valor econômico, tais como (i) produtos agrícolas ou minerais, (ii) artigos comerciais, especialmente quando entregues para embarque, ou ainda (iii) produtos não especializados produzidos em massa, além de outros significados sem interesse aqui. ' (autor não identificado)

Um bom exemplo de COMMODITIES é o nosso bom e velho arroz e feijão. Um Liquidificador, um Computador, por exemplo, são commodities "produzidos em massa".  A grande "chave" aqui é que nesta classificação as diferenças estratégicas para quem compra um produto ou outro não são significativas (frisando: do ponto de vista estratégico).

Você não é melhor que o seu vizinho por que você compra o arroz da marca "A" e não da marca "B", ou , o filme "Harry Potter" não ficou melhor no seu DVD Player do que no DVD Player de sua sogra , ficou?? As diferenças entre o ERP X e o ERP Y não são significativas. O gerenciamento da infra-estrutura de TI não deve ser diferente se for feito por alemães ou americanos ou brasileiros ou suecos....

Sem saber se isto é verdade ou não, só o fato de isto ser mencionado em uma revista de grande "repercussão" , começamos a viver mudanças interessantes. 

Um executivo que pretenda montar uma Equipe ou formatar uma área de Software, avalia as contratações ou "aquisições" como se fosse um produto de uso/consumo. Por exemplo: Onde o custo de um "analista" é mais baixo ? Na Índia , na China , nos EUA ou no Brasil?

Este tipo de interpretação provoca um "achatamento" dos valores pagos para os profissionais da área no mundo todo, inclusive nos EUA .  Nenhuma grande Empresa vai pagar mais de 10 dólares por hora de desenvolvimento se este é o custo na Índia, se isto for necessário, é mais fácil transferir a base para Índia.

Repare que não estamos falando de um país com pouca tradição em software,  a Índia detêm um bom número de empresas certificadas com níveis altíssimos em CMM (várias com nível 5). O problema é a economia na Índia - renda per cápita em dólar muito baixo em relação a outros paises.

Estamos vendo o reflexo aqui e agora.  A IBM viveu (e vive) uma maratona de contratações de profissionais da área para "montar" suas áreas de Suporte e Desenvolvimento aqui no Brasil (Hortolândia SP). 

Parece ser muito bom para o Brasil, não é? NÃO, infelizmente , pois o padrão ou a referência sempre será o valor mais baixo (a Índia por exemplo). No caso , os valores giram em torno de 10 dólares a hora (um profissional de nível pleno ou sênior).

Se amanhã a China tiver mão de obra capaz (como a Índia) cobrando 5 dólares (o que não é difícil se avaliarmos sua trajetória na área industrial) é para lá que os projetos e recursos serão direcionados.

O que nos dá uma certa "felicidade" é que , no caso da IBM, fomos escolhidos pela nossa excelência e por , talvez, termos a cultura bem similar a cultura americana. 

Não acredito que um gerente americano se sentiria confortável na Índia sabendo que: "Hambúrgueres são proibidos pois a Vaca é sagrada!".

 

Deus nos preserve assim...E seja o que ele quiser....(Eu já senti no meu bolso!)

 

MAURICIO M P SILVA

Atua em Desenvolvimento de Software desde 1986 - Valinhos - SP

mmpinf@dglnet.com.br