Requalificação profissional : 

uma das variáveis onde se põe a culpa do desemprego

 

            Este mês de fevereiro de 2004, está marcando um desemprego em torno de 19%, quando comparado com o mesmo período do ano anterior.

            Nas reportagens na TV, assistimos os noticiários, onde se vê o apontamento de alguém não tão novo: a requalificação profissional.

            Isso é mais uma manobra de enganar o povo, provocar uma corrida a certos cursos, como se indicassem fórmulas milagrosas. Não que a educação não seja importante, só mudaremos este país ou outro em qualquer lugar do mundo, com ela, com investimentos sérios e um programa educacional muito superior ao que estamos vendo hoje.

            Claro, existem pessoas que não têm a  possibilidade de aprender algo sobre computadores em geral, ou fazer um curso de atendimento telefônico, para assim melhorarem os seus conhecimentos.

            Há pessoas com um, dois cursos superiores, experiência, alguns com mestrados e afins, outros mesmo sem cursos superiores, mas com grandes conhecimentos em suas áreas de atuação. Estas pessoas também estão desempregadas. Vemos estudantes em nível técnico ou mesmo o superior, sairem de seus cursos sem ao menos um estágio. Gente nova, cabeça com um volume grande de informações e conhecimentos, e muitas destas pessoas ávidas, para colocarem tudo isso em prática. Será que eles não estão qualificados??

            Concordo com a requalificação, sim, sou grande defensor!!  Mas a requalificação, ou melhor, um aprendizado básico, daqueles que selecionam, das pessoas que estão na linha de frente de uma agência de empregos, das consultorias (que contratam como PJ), dos “especialistas” em recrutamento e todos os que se envolvem nesta área. Faltam a estes conhecimentos técnicos, conhecimentos humanísticos, bom senso entre outras coisas. Muitas destas empresas, mal olham nos olhos de quem está procurando uma nova oportunidade.

            Quanto as empresas, não sabem ainda o que querem, mas sabem que tipo de profissional desejam buscar no mercado, e ficam inventando qualificações, mais fluência em idiomas e outras formas de filtro, que se alguém passa, serão pouco utilizados ou mesmo nunca serão utilizados dentro da empresa.

            Temos a área de tecnologia da informação que muda muito rapidamente, e muitos profissionais fazem cursos, que muitas vezes não serão utilizados da empresa atual, outros buscam aprender novas técnicas, novas ferramentas ou mesmo fazer uma pós-graduação, um curso de gerenciamento ou qualquer outra formação que seja. E o que encontram no mercado? “Você não tem experiência, você fez curso, mas usou onde?”, esta é a frase do pessoal que seleciona. Ele está qualificado, atualizado, mas foi barrado pela “falta” de experiência. 

            A área de TI, e muitas outras, sempre foi e será alvo de especuladores, alvo de cortes de custos, alvo de contratar estagiários com conhecimentos de quem já é profissional. Falta a esta área a união entre os profissionais, que muitas vezes ficam brigando entre si, onde uns têm conhecimento de ferramenta X, que estudaram na universidade Y e outros não tem. A corrente é forte porque cada elo faz a sua parte e um ajuda o outro.

            O desemprego é causado ainda, pela própria globalização, pelo jogo do capitalismo que é alimentado pela ambição de muita gente, e para ganhar sempre, manter seu lucro, recorrem à própria tecnologia, a cortes de custos, reengenharia de processos, a redução de turnos (mas a produção aumenta, menos por mais).

            O capitalismo é um sistema, vezes complexo, mas simples se observado de um ponto de vista: produz-se, o que se consome. É o ciclo. Com muita gente desempregada, o consumo cai, a economia sofre com isso, o governo sofre com isso, e quando não pode arcar com sua previdência por exemplo, aumenta alíquotas em cima de quem ainda está com seu emprego ou sua empresa produzindo. É um ciclo, que do jeito que está, caminha para a sua falência.                      

            Portanto jogar a culpa na requalificação é simples balela e enrrolação, as causas são outras.

 

Anderson Siqueira (siqueirastos@tutopia.com.br)

Administrador de empresas e analista de sistemas, formado há 7 anos,
atuando em diversas áreas de negócios e sistemas. Professor universitário na
Fatec/Mauá.