Na calada da noite

por Ulysses Monteiro Duarte*

Quem nunca se viu, no meio da madrugada, debruçado sobre um projeto ? Não por que haja um relatório para entregar na manhã seguinte ou uma demonstração a fazer. Mas simplesmente por ter sido contagiado pelo trabalho e não ter percebido o passar do tempo. Este quase chavão está no prefácio do livro The Late Night Guide to C++ (Nigel Chapman – ed.: John Wiley). É um fato inegável que é comum entre os profissionais de TI o hábito de trabalhar à noite e podemos enumerar centenas de causas para este fenômeno: é o horário que os filhos estão dormindo, o silêncio impera, não há telefone tocando, etc. Todos estes motivos fazem sentido e são incontestáveis.

Relógio biológico

Segundo os médicos não há grande problema em trabalhar à noite, desde que haja regularidade e que nosso organismo não esteja submetido a alterações bruscas. Nosso organismo é regido por nosso relógio biológico, analogia bem própria, na medida que nosso organismo é construído para ser metódico. O que isto quer dizer ? Que não há grande problema em trocar a noite pelo dia, desde que seja feita realmente uma troca. O mais maléfico é a não existência de regras e horários.

Produtividade

O problema, então, não está no trabalho noturno em si, mas em fazer durante a noite, o que poderia ser perfeitamente possível fazer de dia. Há muitos livros sobre o assunto e há uma certa unanimidade em afirmar que trabalhar muitas horas por dia pode na verdade ser indicativo de improdutividade e não de dedicação. Há algum tempo, eu li uma reportagem (desculpe-me, não me lembro a fonte), que apresentou o resultado de uma pesquisa em ma série de empresas de TI e concluiu que os funcionários ficavam em média 10 horas no escritório, mas o tempo líquido de trabalho não passava de 6 horas. O que se faz nas outras 4 horas ? Não se trata apenas do tradicional cafezinho , vai muito além disso. A evolução traz a cada dia mais inimigos da produtividade. Um dos grandes vilões é o e-mail. Isto mesmo, o mesmo e-mail que agiliza o fluxo de informação, reduz custos e tem mil e um outros benefícios, traz também, seus spans, piadas, mensagens pessoais e quilos de outras mensagens inúteis. Se você discorda, pare para pensar quantas ligações telefônicas de cunho pessoal recebemos e quantos e-mails não profissionais lemos no horário de trabalho. No geral, nossos amigos ligam para nossa casa e não para o escritório, mas ainda são poucos os que tem bem definidos um endereço de e-mail profissional e outro pessoal. Outros inimigos da produtividade são as reuniões inúteis, a falta de organização, a ausência de objetivos bem definidos e, talvez o principal, a inexistência de uma metodologia de trabalho bem definida.

Cartão de ponto

Na França, com objetivo de reduzir o desemprego, foi reduzida a jornada de trabalho e abolida a hora extra. Chega-se ao ponto de estipular multa por funcionários que fiquem na empresa depois do expediente. Qual o lado positivo disso ? As pessoas se viram obrigadas a aproveitar ao máximo o tempo de trabalho. E qual seria o segredo ? Apenas planejamento. É claro que este tipo de lei é sempre discutível, uma vez que, teoricamente, se você quiser trabalhar ate mais tarde é problema só seu e de sua empresa. Mas será que é realmente necessário trabalhar 10, 12 ou 14 horas por dia?

Método

O que então fazer para trabalhar menos e ser mais produtivo? Não há receita definitiva, embora tenhamos por aí vários livros sobre o assunto. Talvez um bom começo é tentar ser metódico. O curioso é que, para muitos, ser metódico soa como um defeito e não uma qualidade. Isto porque há uma idéia errônea ligando metodologia a procedimentos burocráticos e repetitivos. Há como ser metódico, sendo ao mesmo tempo, dinâmico e criativo.

Método aqui não se trata de técnica de análise ou projeto, UML, Modelo Relacional, formais normais e tudo isso que encontramos em qualquer boa livraria. O que estou interessado aqui é na forma pessoal de trabalho, nos hábitos de cada um.

A boa notícia é que algumas mudanças simples nos nossos hábitos são capazes de aumentar de forma considerável nossa produtividade. A má é que não há um manual enumerando tais regras. O que funciona para um pode ser catastrófico para outro . A idéia é cada um criar seu próprio método de trabalho e seguí-lo. O ponto principal é o a administração do tempo. Não precisa ser algo tão radical como dormir 15 minutos a cada 2 horas.

Dicas

Algumas dessas dicas podem funcionar bem para você. Cabe a você, e somente a você, avaliar cada uma delas.

  1. Tenha horários regulares: Acostume seu organismo a respeitar horários certos para começar a trabalhar, ir e voltar do almoço e, principalmente, para descansar. Procure ter horário regular para dormir, acordar e fazer as refeições.
  2. Nosso poder de concentração continuada é limitado, em geral a algo um pouco menor que 2 horas. Observe qual é o seu limite. Faça intervalos entre períodos deste tamanho. Dez minutos de pausa a cada 1 hora e meia pode ser um bom ponto de partida, então você vai alterando de acordo com seu pique. Nestes intervalos aproveite para tomar o seu cafezinho, esticar as pernas, dar aquele telefonema e fazer um pequeno alongamento. Evite interrupções fora deste período. Não tente extrapolar seu limite, pois correrá sério risco de cometer erros, que normalmente não cometeria.
  3. Macro planejamento: Faça um cronograma com as atividades a serem executadas. Para cada atividade, estime a data de início e término. Acompanhe a evolução diária e refaça o cronograma se necessário.
  4. Micro planejamento: Faça um planejamento diário do que deve ser feito no dia e confira ao fim do dia se o planejado foi executado. Seja realista ao fazer o planejamento. Não adianta ter uma lista de tarefas sendo postergadas. Um boa estratégia é começar pelas atividades que você ache mais desagradável. Deixe uma pequena folga para imprevistos.
  5. Fuja de reuniões inúteis. Ao ser convocado para uma reunião, procure saber o assunto, o tempo de duração e se sua participação é realmente necessária.
  6. Tire férias regularmente. Seu organismo precisa recarregar as baterias. Férias não é um feriado prolongado. Tire no mínimo duas semanas. Neste período não faça nada que faça você lembrar do seu trabalho. De preferência viaje para um lugar tranqüilo.
  7. Utilize telefones, pagers, fax e e-mails de forma racional. Eles devem ser instrumentos de economia de tempo, nunca consumidores.
  8. Confie em quem trabalha com você. Você não precisa fazer uma conferência minuciosa do trabalho de seus colabores.
  9. Tenha sempre em mente seus objetivos de curto, médio e longo prazo. Tenha certeza que tudo que você faz hoje esteja fazendo com que você se aproxime de seus objetivos.
  10. Utilize uma metodologia de desenvolvimento de sistemas. Adapte-a a sua realidade. A metodologia deve auxiliá-lo na sua empreitada, não deve ser pensado como um trabalho adicional. O uso correto pode fazer com que horas de sono sejam preservadas no futuro. Do mesmo modo, adote uma ferramenta CASE. Mas tenha sempre em mente que se trata de uma ferramenta, ou seja, é o meio e não o fim. O principal é mudar a forma de pensar. Pode ser doloroso no começo, mas a recompensa não tarda.
  11. Trabalhe motivado. Sem motivação são maiores as chances de cometer erros crassos. Se você não encontra motivação no que faz, algo está errado, ou você ou seu trabalho. Busque a solução para este impasse, ainda que pareça radical demais.
  12. Defina sua metodologia de trabalho e seja fiel a este método. Discipline-se.

 

O assunto está longe de ser esgotado, mas já passam das 3 da madrugada, preciso encerrar por aqui.

____________________________________________________________

Mergulhe no assunto:

 

Para pensar...

É notório que a cada dia que passa a computação está cada vez mais presente em nossas vidas. Não seria exagero afirmar que, de certo modo, estamos dependentes dos sistemas computacionais. Nos remédios encontramos o nome do farmacêutico responsável, cada obra tem um engenheiro, cosméticos, e muitas outras coisas. Por que um software não possue a figura do profissional responsável ?

(OBS: Texto não revisado)

(*)  Ulysses Monteiro Duarte (http://www.umd.niteroi.net   - ulysses@niteroi.net)  é Engenheiro de Computação com atuação em desenvolvimento de sistemas.